quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Sangue & Sonho


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Eu segui os rastros dela. Caminhei pelas vielas sórdidas de Londres perseguindo um aroma peculiar. Eu podia ouvir as gotas da chuva tocando o asfalto antes que os céus começassem a molhar as ruas. E nesse aspecto preditório, o sabor adocicado entorpeceria meus sentidos quando o ausente sangue imortal escorresse entre meus lábios. Era esse o odor: a decadência gélida que habitava as veias mortas de meus semelhantes. Ninguém nasceu para ser um demônio, compreendam, as pessoas apenas morreriam por esse propósito. Por isso eu a desejei tanto. Apesar de me regozijar com o sangue humano, nenhuma coisa seria mais satisfatória do que ver um coração monstruoso dilacerado por minhas presas.

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"Você está voltando para casa, minha cara. Nós a esperamos por tantos anos... Ele também está aqui. Olhe lá fora, através da janela, olhe para os jardins. Ele aguardou ansiosamente. Bom o bastante é bom o bastante para você? Ou seus sonhos ainda estão sendo partidos? Bom o bastante é bom o bastante para mim. E agora é quase tarde demais, mas isso vai durar para sempre. Atravesse a porta e o toque. Caminhe sobre o piso amadeirado, pois bom o bastante é bom o bastante para nós. Sinta a grama sob seus pés, sinta os dedos sobre suas mãos. É real, minha cara. É real. Ele não morreu outra vez. Dessa vez. Mas agora... Você está voltando para casa. Volte."


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Parte 1 - "Cigarettes"

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Ouviu-se um grito. Era agudo e prolongado fora por alguns segundos. Seu eco, de ignomínia inaceitável devido ao caráter plagiador, percorreu todo o apoucado espaço de uma viela escura, e inclusive a teria ultrapassado se um vulto disforme não o tivesse detido. Mas compreenda, foram os pensamentos, e não as luzes, que se apagaram. Os lábios que gritavam emudeceram-se com a segunda presença, e em tal momento, de reflexão não programada e profunda meditação, ele – num corpo bem apresentado e com vestes mal dormidas – introduziu-se ao senhor de insólito destino, talvez à senhora. E quando se deu conta de que nada do que fizesse naquela noite mudaria o aspecto trivial das coisas que mais odiava, rendeu-se aos desejos vítreos de uma garrafa seca e ao vício sórdido de um maço recheado, saboreando o vazio e deleitando-se com a perspectiva de um sono infame. O enaltecer do futuro próximo, dessa vez, não lhe ultrapassou a estima pela sensação de dor e agonia que todas as flores secas, vivas ou mortas, deveriam nutrir em seus âmagos. Por isso nomeou-lhe miosótis, para que do anis de seu vestido molestado retirasse o motivo da cor das pétalas caídas ou simplesmente o contrário. Bebeu a última gota do absinto que lhe envenenava a mente e jogou sob a sola de seu calçado caro um cigarro imaculado pelo fogo, seria uma forma cortês de dizer àquela figura atordoada que ele não era seu agressor. Mas hesitou por assim pensá-lo. Quem, de fato, garantiria igual afirmação – ou mera suposição? Poderia então ele, por deter controle parcial de seus pensamentos, medir e comandar suas ações? Ou seria vítima de um sistema pré-disposto a trapaceá-lo com seus próprios valores? Preferiu abdicar da culpa de uma promessa dúbia ignorando-a por completo.

- Adeus.

Pequena mostra de um futuro conto escrito para o projeto Inversismo. Na verdade, este é o início de um conto narrado dentro do conto principal. O personagem mais influente na história - digo, o protagonista - brevemente poderá ser introduzido aqui, chama-se Kieran.
 
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