Uma vez mais.
Qu
o cha
mado,
mudo,
chama,
o silêncio
se faz eterno,
mas quando as
vozes voltam a falar,
você respira, faz do chamado
suposição.
Meu coração se esconde perto demais do seu.
Eu ainda estou esperando. Ainda estou procurando. Você partiu cedo demais, não foi? Eu não estava pronta - minto um pouco agora para aliviar a dor, pois eu nunca estaria pronta. Eu só queria ouvir sua voz outra vez... Sabe o que me destrói? É que eu não consigo se quer lembrar o timbre. Mas os seus olhos azuis, deles eu nunca esqueci. Ainda recordo aquela noite, quando todas as estrelas pareciam brilhar em nossa homenagem. O último valsar, a taça de vinho... Pedaços de vidro espalhados pelo chão. Eu senti a sua morte no mais profundo inverno de minh'alma, e de alguma forma sei que o frio ainda não passou. Posso vislumbrar seu cabelo escuro e liso contornando sua face cor de mármore, embora seus traços sejam imprecisos e suaves demais para serem mantidos por pouco além de alguns segundos. O que mais me falta, todavia, não são as suas feições sempre belas, e sim a força de seu espírito. Desejo compartilhar de seus pensamentos, desejo julgar suas filosofias vis e seus conceitos deturpados de felicidade. Quero engolir a sua alma e cuspi-la livre ao meu lado. Você entende, não entende? Eu ainda estou esperando. De alguma forma eu sei e de algum modo eu sempre soube. Sinto muito, acho que não pude suportar a certeza da sua ausência. Acho que ainda não posso. Nunca me ensinou a viver por mim mesma, de modo que não passo de um pálido reflexo de quem um dia eu fui ao seu lado. O grande problema é que somos partes fundamentais de um mesmo todo. Você tem o que me falta. Eu posso sobreviver, mas não faço mais do que isso sem você. Meu medo é que ao me deparar com todos os fantasmas - amados - de meu passado, eu perceba que não passam de lembranças vazias. Meu medo é não encontrá-lo aonde meus passos me guiam, aonde constantemente escuto seu chamado. Posso ser louca e delirante, sempre posso sê-lo, mas nenhuma falsa certeza me é mais sólida do que a certeza de que tudo o que sinto e sinto saber é real. Eu preciso de você todos os dias, não agüento mais conviver comigo e com minha solidão. Porque sou fraca demais para suportar sozinha, mas esperta o bastante para construir as mais poderosas defesas. E não importa quantos escudos usemos... Há sempre quem possa nos machucar. Às vezes eu penso se não estou sozinha aqui, se de certo modo não vivo um hiato entre nós dois, se não está somente a me observar, esperando em qualquer lugar para além. Sabemos que no fundo, abaixo de toda a couraça de mistérios e das palavras de fragilidade, eu sou mais forte do que deveria ser. É por isso que cogito essa hipótese, pois eu prosseguiria com o plano - com ou sem você. Mas a dor... A saudade... São as pequenas coisas que me consomem todos os dias. A falta de sentido. O vazio. Por favor, volte pra mim.
O Lago dos Cisnes, XIX.
[...] Disse simplesmente, recusando-se a lhe observar o rosto. Qualquer expressão, bela ou vetusta – esta última que ultrapassava em desprezo de seus conceitos a fealdade –, poderia fazê-lo mudar de idéia, mas deixar-se governar por impulsos de uma natureza tão duvidosa quanto os significados da flor que a desconhecida representava seria um erro inadmissível.
- Fale-me!
Ela bradou antes que dois passos fossem dados em seu oposto, impedindo-o, com o susto, de prosseguir pela alameda das ilusões – onde poderia livrar-se daquela presença com o mero gesto de quem sabe ignorar. Ele pressionou os dedos no punho fechado e parou, virando-se para ela e tomando-lhe o semblante com um curioso olhar. Era bela, decerto, e jovem, deveras, o que lhe causou o asco, pois imaginar era antes aceitável ao ato de tomar a certeza de que a influência daquela pessoa estava imposta terminantemente sobre suas reações.
- Não há nenhuma resposta que lhe possa ser dita sem que tu mesma já não a tenhas encontrado.
As palavras desencadeavam uma série de conclusões aleatórias nele. Não respondia a ela, mas a si, e com isso postou-se desejoso diante da respiração cálida e dos lábios rosados da moça de vestido azul. Afagou o maço de cigarros no bolso externo do paletó, uma espontânea vontade o seduzia, mas era necessário negá-la, do contrário os acontecimentos perderiam o sentido e o rumo das coisas culminaria no mais sórdido desfecho. Era sempre assim. Ele precisava lutar contra suas necessidades, precisava fingir para outros olhos o que não estava vendo – quando na verdade, era apenas o que poderia enxergar. Não existia beleza nas coisas puras, não existia pudor num ato de bondade. A beleza era um artifício que dispensava interpretações, deveria ser apenas admirada e nunca explicada, por isso as designações fugiam aos seus limites. Já o pudor residia somente na mente de quem observava e em mais nada.
- Eu suportaria teus abraços e até tua agressão. Meu orgulho me condena ao silêncio, mas meus sentimentos não cansam de dizer: não há nada tão danoso a uma alma quanto a indiferença de outra por ela estimada. Se vá, mas não me deixe.
As palavras que acabara de ouvir, ela sabia como ninguém os seus significados. Talvez por isso falasse como se há muito o conhecesse, insinuando acontecimentos que somente uma memória compartilhada podê-lo-ia mostrar.
[...]
4 de outubro de 2010
Como poderiam saber que eram felizes? Como... Poderíamos?
– Aponte o dedo para lua. Espere que ela venha nos buscar. – Eu repeti para ele vislumbrando seu sorriso mudo, sentindo o vento frio nos visitar a face e prosseguir por seu caminho como se nunca nos tivesse encontrado. Porque geralmente era assim que as coisas aconteciam. Onde morávamos o céu nunca mudava de cor, as árvores nunca dançavam e as pessoas... Bem, elas simplesmente não existiam. Mas eu e ele estávamos lá. Enxergávamos mais do que deveria ser permitido a qualquer olho ver. Além das vestes, além da carne e das palavras doces. Não havia almas, não havia ecos ou reflexos, eram todos seres vazios. Vazios como nossos destinos. Vazios.
- Meu amor, ma pierrot. Traga-me mais vinho. Traga-me mais goles de paixão e, se quiser, traga-me um chá bem forte. Eu preciso acordar. De novo. – Eu a chamava por diversos nomes, todos eram ela. Minha colombina desalmada também chorava o nosso amor. Ela adentrou a porta do quarto como uma aparição veneziana, vinda do sol e do sopro gelado da noite. Seus passos lentos abriram a cortina pesada deixando que o pó contornasse seus braços pequenos, seu vestido branco e colonial, seus cabelos lisos e longos, seu rosto encoberto pelas sombras da luz. Eu a amava e descobria que a cada novo ângulo a amava mais. Ela era uma, mas todos era ela. Todos.
– Não deveria dormir tanto. Há pouca vida em você. – E nenhum pedaço eu pretendo dividir com os seus sonhos. Sorri ao parar diante da janela sabendo que a cena o agradava sempre que repetida, como se nunca a tivesse visto. É raro encontrar quem saiba apreciar mais de uma vez os mesmos contentamentos sem permitir que eles percam o que possuem de melhor – o prazer de um momento. – Venha me abraçar e dizer que está feliz por me ver. Esperei a manhã inteira por isso. – Pedi ao me aproximar da cama. Sentei na borda acariciando-lhe o peito coberto pelo lençol. Estava tão quente. Eu não pude perceber que nasciam lá todos os sinais. No olhar sereno que me sorria todos os dias. Na voz que se poupava a cada nova noite. Nas reflexões que nos faziam chorar. Na beleza das coisas que percebíamos subitamente ao nosso redor. Os pequenos sinais.
– Dizer que estou feliz em vê-la é quase nada... Eu ainda estou vivo por isso. – A tomei em meus braços num abraço urgente que revelava todo o caráter de meus sentimentos. Nós sabíamos o que as próximas horas nos reservavam, mas fingíamo-nos de tolos. Era mais fácil quando apenas interpretávamos o que queríamos ser – sem realmente sê-los. Eu a amei nesse dia mais do que em todos os outros, mas por nenhum segundo pensei em convencê-la de abandonar o plano. Pois eu também o queria. O mundo era pequeno demais para nós, havia tanto a ser desbravado e, ainda assim, tão pouco. Nossos ideais e sonhos se afogavam todos os dias para ressuscitarem quase mortos na madrugada seguinte. Sufocávamos em silêncio e, para tanto, não pensávamos no amor como cura, somente como salvação. O mundo não era pequeno para nós, mas para nós dois. Dois.
O que somos é consequência do que pensamos. Buda
outubro, trinta. 3 p.m.
Quando adentrei aquela sala, quando inalei o odor de resíduos químicos e de morte recente, soube que não se tratava de um dia ordinário. Caminhei até a antepenúltima fileira de cadeiras, procurando por uma que deveria ser minha. Quanto mais longe dos outros e mais próximo de mim eu estivesse, melhor. Só não contei com uma segunda presença. Abri o livro vermelho e lá ele estava na introdução, todavia, não pude percebê-lo no exato momento em que a li. “A percepção do todo é maior que a soma das partes percebidas” e tal sentença carecia de uma explicação que só o futuro poderia nos trazer. Ele sentou ao meu lado e pareceu não me notar, como os indivíduos de plástico a quem eu era apresentado todos os dias nos corredores. Desejei acreditar, para boa-venturança de meu ego convencido, que os olhos deles fugiam dos meus, quando na verdade apenas não os procuravam. Minha face que – modéstia à parte – geralmente despertava o interesse alheio, não lhe atraiu por um mísero minuto. Era como se o tempo não existisse, como se as palavras do professor e os desenhos no quadro verde fossem as únicas coisas importantes naquele lugar. Senti-me um lixo. Não que eu fosse um estúpido narcisista sedento por atenção, mas ele invadiu o meu espaço! Não pediu permissão ao fazê-lo, despertou-me automaticamente o interesse e então se negava em dar-lhe um fim. Inutilmente tentei ignorar aquela presença que sugava minhas energias, tão próxima estava. E quanto mais inquieto eu ficava, mais compenetrado de seus estudos ele parecia. As explicações passavam depressa, eu tentava anotar o máximo possível, mas ele estava sempre um passo à frente, fosse pelo talento, ou pela minha falta de foco. Logo parei. “O exercício do silêncio é tão importante quanto a prática da palavra” e nos instantes seguintes eu tive certeza desta constatação. Fora por culpa do silêncio dele que meus pensamentos começaram a falar incessantemente. A questão é que eu não parava de analisá-lo, nem por um segundo. A aula e seu tema perderam qualquer sentido diante daquele total estranho. Quem ele era e o que queria de mim? Não, a pergunta correta seria: e o que teria de mim? Precisei tocá-lo para saber que estava vivo. Ele rabiscou por acidente o que anotava e pareceu deveras furioso por isso. Mas eu era inatingível em minha redoma de indiferença aparente. Eu copiava com perfeição as imagens do quadro, mas tudo o que minha letra miúda escrevia era divagações sobre aquela nova personalidade. Eu estava há mais de três anos naquela academia e ninguém me impôs tamanha necessidade de resposta em tão pouco tempo. Esperei que fôssemos liberados para forçar uma aproximação. Devo ressaltar que uma das coisas que mais me atraiu naquele rapaz foram seus lábios. Eram exageradamente grandes e isso despertou meu natural fetiche por tal parte do corpo humano. Mas senti-me duplamente lesado, pois ele era um homem e eu jamais poderia tê-los. Entenda, desde cedo aprendi a seguir padrões, e no que se trata de minha coleção particular... Não, isso não vem ao caso. Porém, antes que entenda mal, devo acrescentar que não se tratava de uma colocação sexual, era muito mais complexo do que qualquer impulso dessa natureza. Continuando. Nós trocamos confidências pela primeira vez naquela tarde, logo após eu começar a importuná-lo na fila do refeitório. Ele apaixonou-se por meus cílios e não hesitou em tocá-los, eu, por contrapartida, apertei-lhe os lábios. Éramos um casal de desconhecidos na gênese de um relacionamento nada habitual. Trocaríamos de almas em menos de um mês, mas isso, nem eu, tampouco ele, poderia imaginar.
M. Hendrich, 2008.