quinta-feira, 7 de outubro de 2010

VAZIO, cheio

4 de outubro de 2010

Como poderiam saber que eram felizes? Como... Poderíamos?

– Aponte o dedo para lua. Espere que ela venha nos buscar. – Eu repeti para ele vislumbrando seu sorriso mudo, sentindo o vento frio nos visitar a face e prosseguir por seu caminho como se nunca nos tivesse encontrado. Porque geralmente era assim que as coisas aconteciam. Onde morávamos o céu nunca mudava de cor, as árvores nunca dançavam e as pessoas... Bem, elas simplesmente não existiam. Mas eu e ele estávamos lá. Enxergávamos mais do que deveria ser permitido a qualquer olho ver. Além das vestes, além da carne e das palavras doces. Não havia almas, não havia ecos ou reflexos, eram todos seres vazios. Vazios como nossos destinos. Vazios.

- Meu amor, ma pierrot. Traga-me mais vinho. Traga-me mais goles de paixão e, se quiser, traga-me um chá bem forte. Eu preciso acordar. De novo. – Eu a chamava por diversos nomes, todos eram ela. Minha colombina desalmada também chorava o nosso amor. Ela adentrou a porta do quarto como uma aparição veneziana, vinda do sol e do sopro gelado da noite. Seus passos lentos abriram a cortina pesada deixando que o pó contornasse seus braços pequenos, seu vestido branco e colonial, seus cabelos lisos e longos, seu rosto encoberto pelas sombras da luz. Eu a amava e descobria que a cada novo ângulo a amava mais. Ela era uma, mas todos era ela. Todos.

– Não deveria dormir tanto. Há pouca vida em você. – E nenhum pedaço eu pretendo dividir com os seus sonhos. Sorri ao parar diante da janela sabendo que a cena o agradava sempre que repetida, como se nunca a tivesse visto. É raro encontrar quem saiba apreciar mais de uma vez os mesmos contentamentos sem permitir que eles percam o que possuem de melhor – o prazer de um momento. – Venha me abraçar e dizer que está feliz por me ver. Esperei a manhã inteira por isso. – Pedi ao me aproximar da cama. Sentei na borda acariciando-lhe o peito coberto pelo lençol. Estava tão quente. Eu não pude perceber que nasciam lá todos os sinais. No olhar sereno que me sorria todos os dias. Na voz que se poupava a cada nova noite. Nas reflexões que nos faziam chorar. Na beleza das coisas que percebíamos subitamente ao nosso redor. Os pequenos sinais.

– Dizer que estou feliz em vê-la é quase nada... Eu ainda estou vivo por isso. – A tomei em meus braços num abraço urgente que revelava todo o caráter de meus sentimentos. Nós sabíamos o que as próximas horas nos reservavam, mas fingíamo-nos de tolos. Era mais fácil quando apenas interpretávamos o que queríamos ser – sem realmente sê-los. Eu a amei nesse dia mais do que em todos os outros, mas por nenhum segundo pensei em convencê-la de abandonar o plano. Pois eu também o queria. O mundo era pequeno demais para nós, havia tanto a ser desbravado e, ainda assim, tão pouco. Nossos ideais e sonhos se afogavam todos os dias para ressuscitarem quase mortos na madrugada seguinte. Sufocávamos em silêncio e, para tanto, não pensávamos no amor como cura, somente como salvação. O mundo não era pequeno para nós, mas para nós dois. Dois.

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