domingo, 27 de dezembro de 2009

Hell is empty and all the devils are here.

Deixe-se sangrar.

Um sussurro para eu estar entregue às mãos do ceifador.


A brisa gélida invadia gradativamente meus pulmões, consoante o ar da meia-noite era absorvido. Uma alvorada serena era aquela que recobria a paisagem do dia trinta e um. O mês? Uma incógnita inclusive para mim. Eu ouvia o ecoar de passos mudos em cada esquina que ultrapassava custosamente ao caminhar, a iluminação escassa de algumas lamparinas envelhecidas pouco convencia os visitantes de que aquele fora um lugar santo. Eu observei as torres mais altas da catedral, fechei os olhos e pude ouvir o cântico divino dos sinos que algum dia lhe foram úteis. Adentrei os portões de ferro ornados com traços de uma era gótica, há muito abandonada por qualquer alma que se prestasse a observá-los. Não havia ninguém do outro lado, nada poderia me condenar por profanar a terra chã. Meus passos céleres me guiavam rumo a uma escuridão - até então - desconhecida, eu era conduzida por um toque pérfido (de alguma mão) que insistia em me empurrar para as entranhas do cárcere mental (o meu inferno particular). Para meu reflexo pálido, dezenas de orbes oblíquas se direcionavam, contemplando o longo vestido falecido nas cores do breu noturno. Minha tez facial estava meramente revestida por uma máscara prateada, com detalhes em joias raras - e caras - que de nobreza nada tinham além de um pseudovalor furtado. A valsa dos condenados já havia se iniciado, um pouco antes de minha chegada. Eram almas perdidas, crianças desconhecidas em uma selva de luxúria e escárnio. A alta sociedade inglesa despir-se-ia nos leitos ignóbeis da flagelação espiritual. Dentro da catedral? Sim, mas não era de santos que nós falávamos. Eu admirava todos os demônios, e clamei que o próximo vinho trouxesse um só para meu deleite.


Faça-me sangrar.

Dois sussurros para você me pertencer.


Por Harriet Vermont.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Hey moon, please forget to fall down.

O vento que rugia pela alvorada desprovida de iluminação era menos ardente que um risco em pele, mas atingia-o como gelo nas pálpebras. Ora fechadas, ora abertas, estava sozinho inalando o odor de vísceras putrificadas em algum esgoto pouco longe. Não, nada por entre aquelas vielas tinha um aroma próximo do agradável. O fragor sistemático de carros por entre a névoa já se perdera com o escurecer de cada passo, sem sentidos, sem direção. Todo o mínimo sentido provinha de uma garrafa de cerveja bem presa sob os dedos da esquerda. O silêncio começava a ser interrompido por um timbre que aos ouvidos dele era comum. Sua voz. Um assobio contínuo, programado para elevar o próprio tom a cada pedregulho chutado pelo caminho. Um susto, mas nada além disso. Foi apenas um leve sobressalto ao ser pego desprevenido por um cachorro preso na propriedade leste da calçada, seu latido. Agora outra coisa se anunciava. Olhou para o céu erguendo as sobrancelhas com descaso. O que a lua fazia cheia àquele dia da semana?
Hey lua, não caia. — Outro vento, este notificando-o de um cheiro novo, algo aproximava-se com serena velocidade. Não era nenhum profeta ainda, apenas escutava os passos. Dez, doze, ecoavam por um dos lados. Entranhas de sangue, não, aquele aroma era mais doce. Perfume de quê? Perfume de mulher. Um vulto bastava para adquirir aquela certeza. Andou logradamente até a figura. Mais próximo, mais uma respiração, outro passo, estava bem diante de suas costas. Um esforço, ele não precisava, pois gatuno como crescera seus sons eram sempre poupados. Meio metro, era chegado o momento. Tocou-lhe o ombro. — Buh. — Sussurrou após.

Sobre o autor do texto:
Logan Handel
Inglês, escritor, boêmio;
22 anos, largou a faculdade de direito para escrever.
□ Pai irlandês, mãe americana;
ambos viajantes errantes que o largaram aos doze anos em Londres.
□ Vive em um kitnet no centro da cidade;
trabalha como assistente de palco em um teatro de quinta.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O véu da noite.

Eu vestia o véu da noite e caminhava solitário. Embreagava-me com o ar rarefeito das regiões ermas, me entorpecendo com os pesticidas proliferados do ventre britânico. Queria um pouco de substâncias tóxicas para me envenenar a mente. Outra, outra, outra vez. Mil faces quebradas pairavam a me observar, mil passos não dados me perseguindo. Eu somente podia lamentar-me por aquilo que não conseguia ver. Meu modesto relógio contava-me os segundos até a meia-noite, queria chegar em casa e morrer no sono, mas não havia mapa algum que me levasse de volta. Meus olhos estavam selados, minha faculdade de não saber perdera-se com a nebulosidade do tempo. Talvez fosse a hora de me entregar, talvez uma fada não tivesse tanta magia, e um gesto de amor não passasse de uma quimera. Ilusões inventadas ao meu bel prazer. Havia prazos, palavras, contos a serem cumpridos, e eu não podia mais andar. Parei diante do campanário e fitei a torre mais alta, o sino soava mudo em meus ouvidos, e mais adiante o reflexo da lua enganava-me quanto à figura que se aproximava. Cabelos d’ouro, que se ondulavam conforme o vento cãs da alvorada. Os demônios estavam todos lá, todos loucos ao redor dela. Eu não queria vê-los, mas necessitava do toque fétido. Queria tocá-los. Possuí-los e por eles seria eu possuído em troca. Um pouco de vodka para continuar vivendo. Perdição, eu queria sentir mil vidros no peito e chorar pela eternidade com a dor. Mentiras, mentiras mal contadas. Eu não detinha lágrimas sob os olhos. Não detinha valor algum para ser chorado.

Créditos: River¹.

¹ River P. - um homem inglês de vinte e três anos que trabalha para o Burlesque Theater desde os dezesseis, quando começou sua carreira como ator. Aos vinte anos foi internado após uma série de surtos e diagnosticado como portador de esquizofrenia. Em pouco tempo se tornou o autor das melhores peças do lugar, com renome internacional e dezenas de prêmios. Atualmente vive de escrever roteiros, em um apartamento do subúrbio inglês, na companhia de um gato (laikus), um rato (peter), uma cobra (midna), uma filha (Fairy) de seis anos, e uma esposa (Mirian) de vinte e cinco. Aparentemente ele poderia ser considerado normal, mas ninguém jamais fez ideia de qual tipo de realidades ele tem projetado na própria mente.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

            A Carta (29 de agosto de 2009)

                   “O suicídio do saber é o não compreender.” *
                        
Há duas formas de se começar uma história: pelo início, ou pelo fim. Escolherei para esta, assim mesmo no futuro, pois os fatos que serão narrados ainda não me são completamente claros, uma vez que meu talento de escritor é dependente da minha falta de tato criativa (estou agora com a corda, a faca, o queijo, e a paisagem na visão), o meio. O que me é original não me pertence, visto que me fora doado por dezenas de ideias originadas em outras pessoas, corpos, mentes, os três, ou nenhum. Logo, essa história não é nova. Mas então te pergunto, caro ouvinte (ou leitor?); o que é original nesse mundo? Oh Terra, se algum dia tomei emprestadas ideias de outrem, e se antes elas não foram apresentadas com a organização e reforma que me prestei a atribuir-lhes, então mostro como original de mim uma nova abordagem, que ainda que tenha se formado da junção de várias outras – e velhas – ideias pode ser considerada como vinda de quem sou. É meu. Pronto. Acabou. Eu não quero soar um narrador déspota e cheio de uma pseudo-intelectualidade expressada no afirmar de algumas sentenças que deveriam ser de opinião pública, mas se tudo o que eu fosse escrever se limitasse ajustando-se aos padrões do que um – mais? – suposto leitor espera, então nem me adiantaria perder (talvez ganhar) tempo começando com reflexões ou histórias que antes de tudo pertencem a mim. No começo só existia o nada, um vazio absolutamente grande que já estava farto com toda a falta de significância que o preenchia. Uma infância rica mas triste, constata-se aqui. Tratava-se de uma pessoa. Uma alma cuja motivação vital estava por um fio da extinção. Mas antes que se conclua a apresentação de tal, devo lembrar de que (teria sido num momento de insanidade?) propus-me a ignorar todo e qualquer prelúdio. Começando pelo meio... Não, está tudo errado. Não tem como fugir do início, nem agora que ele é o meio, pois sinto que só troquei os nomes e não os valores – vou me repetir três vezes. Tentaremos novamente (eu que estou escrevendo e você que um dia estará lendo, mas se no caso já o está, então o dia pra você é hoje, que seja). O protagonista suicidou-se. Basta, desisto, eis aqui o meu desfecho. Não sabia se conseguiria guardar por tanto tempo comigo essa confissão, e vejo que não. É certo que o meio utilizado me ocorreu agora e o motivo eu ainda nem relatei, mas então foram gastos alguns segundos para que eu dissesse o que deveria camuflar dignamente para o final. Mesmo que seja a morte escolhida uma atrocidade vulgar e indigna. Vulgar porque é constante, e indigna porque a bíblia quis assim – e quem sou eu, reles mortal, para subjugar o poder da palavra de homens que acreditam no que estão dizendo? Eu sou um nada. Mas não, não sou somente o nada de quase vital do qual deveria – e vai – se tratar essa narração. Sou apenas o nada absoluto que a criou. Sou duas vezes nada. Quanta hipocrisia! Serei eu também o tudo repleto com a falta de valores. Não sou muito esperto, mas também não sou moralista, sou um vil homem que pensa, pensa, pensa, e nada consegue explicar. Mas voltando ao final da história... Ele tinha trinta anos, sete meses e quinze dias, quando chegou à conclusão de que nada do que ambicionara pro futuro era bom o bastante para superar o tormento de conviver com o presente. Era um homem instruído na melhor faculdade de Administração de seu país, fazendo jus a isso aprendera a administrar todo seu conhecimento, de modo que sempre era sabido dos assuntos ideais para cada momento. Orgulhava-se de ser considerado tão inteligente pelos demais, de inúmeros elogios orgulhava-se tanto, que esquecera de cultivar outras coisas tão ou mais importantes. Ele lera os livros dos mais célebres filósofos, compartilhara das palestras dos mais renomados profissionais de sua e até de outras áreas. Ele repetia com precisão todas as coisas que aprendia, mas perdera tanto tempo em somente cultivar o seu saber, que nunca (em mais de quinze anos) parou para pensar no que compreendia disso. Ele sabia que era atribuída a Sócrates a frase “conhece-te a ti mesmo”, e a dizia com audácia para tantos outros, mas nunca, de fato, refletira sobre a importância de seu sentido. Foi preciso que esse homem perdesse tudo para descobrir que não tinha nada. Jamais pôde desfrutar dos prazeres simples da vida, pois esteve sempre muito centrado em descobrir meios de experimentar dos mais complexos. Ele não sabia o que era amar, sempre julgara que conhecer dos amores lidos, vistos e ouvidos, bastava para compreender as lágrimas derramadas, os suspiros doados e os beijos furtados por outras pessoas. Apesar de todos seus males até pouco antes não males, pois desconhecidos, ele era uma pessoa agradável, até admirável por quem apenas o ouvia rapidamente falar. Uma convivência com tal homem seria insuportável, pois ele tanto tinha de interessante quanto um site de buscas na Internet. Ele era inteligente, sabia de tudo, e de certas coisas com muita precisão, mas da mesma forma que lhe fartava o conhecimento, lhe passava longe – bem longe – a sabedoria. Do que adiantou ler sobre todo o legado de Aristóteles, de Niezstche, de Dostoiévski, se em quase nada os compreendeu? Era assim que o homem finalmente introduzido, contado, e quase finalizado, pensava sobre os principais aspectos da vida. De tudo conhecia, de nada compreendia. Foi disso que ele morreu. Perdeu primeiramente o dinheiro, num simplório lance do destino, quando todas suas ações foram rebaixadas ao nível do submundo. Depois perdera os amigos, pois uma pessoa como ele só conseguia companhia se estivesse muito antes acompanhado por aquilo que já não tinha. Fora tudo em seis meses. Por fim, perdera a inteligência. Depois de mais dois. Diria ser isso impossível? Eu o afirmo que não. O homem deu-se conta de todas as coisas em sua vida que carecia de compreensão, de como fora tolo na maior parte do tempo, de quão grande era o vazio aonde seus passos se encarregaram de o largar. Enfim ele percebeu que tudo o que tinha era uma pseudo-intelectualidade, não mais dinheiro, não mais amigos, nem mesmo família. Um homem incapaz de enxergar no sol algo além de uma dolorosa mancha de luz. Ele desconhecia das alegrias do dia, dos prazeres da noite, não tinha nada senão um desejo irresistível de anular sua existência desde o início redundante. Ele perdeu sua inteligência no momento que compreendeu que sem sabedoria ela não tinha valor algum. Ele perdeu a felicidade de viver quando compreendeu que nada tinha de realmente feliz para recordar, para ansiar. E todas suas lamentações fizeram sentido quando viu que não havia ninguém ao seu lado para delas compartilhar. Era um homem morto. Esse homem, até então sem nome, até então com vida, ninguém teve para chorar-lhe a morte, mas não fez mal. Ele enfim compreendeu o significado de “não adianta chorar sobre o leite derramado”, e deixou-se levar pela única atitude sábia realizada em toda sua vida. Deixou que o vôo da morte o levasse para lá, ou para lugar nenhum, jogando-se do quinto andar e esperando que sua carta de suicídio não passasse de um conto fictício sob os olhos de alguém. Voemos juntos uma última vez. Eu, você, e minhas enfadonhas palavras sobre a vida desse homem que de nada mais importa. Que de nada nunca importou. Um homem cujo nome não interessa, e cuja vida se mistura com a minha. Agora sabes que o que narro não é original, que sou apenas uma junção de acontecimentos que já destruiu – separadamente – muitas outras vidas. Sou quem narra, quem inventa, quem conta, quem mata, e sou também quem morre. Fim.

*do autor.

Nota -
O texto aqui relatado não passa de um conto fictício, cuja personagem principal o autor - vulgo Jess - não sabe nem mesmo o nome.

 
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