terça-feira, 27 de julho de 2010

M: Let-A :L

O que somos é consequência do que pensamos. Buda

outubro, trinta. 3 p.m.

Quando adentrei aquela sala, quando inalei o odor de resíduos químicos e de morte recente, soube que não se tratava de um dia ordinário. Caminhei até a antepenúltima fileira de cadeiras, procurando por uma que deveria ser minha. Quanto mais longe dos outros e mais próximo de mim eu estivesse, melhor. Só não contei com uma segunda presença. Abri o livro vermelho e lá ele estava na introdução, todavia, não pude percebê-lo no exato momento em que a li. “A percepção do todo é maior que a soma das partes percebidas” e tal sentença carecia de uma explicação que só o futuro poderia nos trazer. Ele sentou ao meu lado e pareceu não me notar, como os indivíduos de plástico a quem eu era apresentado todos os dias nos corredores. Desejei acreditar, para boa-venturança de meu ego convencido, que os olhos deles fugiam dos meus, quando na verdade apenas não os procuravam. Minha face que – modéstia à parte – geralmente despertava o interesse alheio, não lhe atraiu por um mísero minuto. Era como se o tempo não existisse, como se as palavras do professor e os desenhos no quadro verde fossem as únicas coisas importantes naquele lugar. Senti-me um lixo. Não que eu fosse um estúpido narcisista sedento por atenção, mas ele invadiu o meu espaço! Não pediu permissão ao fazê-lo, despertou-me automaticamente o interesse e então se negava em dar-lhe um fim. Inutilmente tentei ignorar aquela presença que sugava minhas energias, tão próxima estava. E quanto mais inquieto eu ficava, mais compenetrado de seus estudos ele parecia. As explicações passavam depressa, eu tentava anotar o máximo possível, mas ele estava sempre um passo à frente, fosse pelo talento, ou pela minha falta de foco. Logo parei. “O exercício do silêncio é tão importante quanto a prática da palavra” e nos instantes seguintes eu tive certeza desta constatação. Fora por culpa do silêncio dele que meus pensamentos começaram a falar incessantemente. A questão é que eu não parava de analisá-lo, nem por um segundo. A aula e seu tema perderam qualquer sentido diante daquele total estranho. Quem ele era e o que queria de mim? Não, a pergunta correta seria: e o que teria de mim? Precisei tocá-lo para saber que estava vivo. Ele rabiscou por acidente o que anotava e pareceu deveras furioso por isso. Mas eu era inatingível em minha redoma de indiferença aparente. Eu copiava com perfeição as imagens do quadro, mas tudo o que minha letra miúda escrevia era divagações sobre aquela nova personalidade. Eu estava há mais de três anos naquela academia e ninguém me impôs tamanha necessidade de resposta em tão pouco tempo. Esperei que fôssemos liberados para forçar uma aproximação. Devo ressaltar que uma das coisas que mais me atraiu naquele rapaz foram seus lábios. Eram exageradamente grandes e isso despertou meu natural fetiche por tal parte do corpo humano. Mas senti-me duplamente lesado, pois ele era um homem e eu jamais poderia tê-los. Entenda, desde cedo aprendi a seguir padrões, e no que se trata de minha coleção particular... Não, isso não vem ao caso. Porém, antes que entenda mal, devo acrescentar que não se tratava de uma colocação sexual, era muito mais complexo do que qualquer impulso dessa natureza. Continuando. Nós trocamos confidências pela primeira vez naquela tarde, logo após eu começar a importuná-lo na fila do refeitório. Ele apaixonou-se por meus cílios e não hesitou em tocá-los, eu, por contrapartida, apertei-lhe os lábios. Éramos um casal de desconhecidos na gênese de um relacionamento nada habitual. Trocaríamos de almas em menos de um mês, mas isso, nem eu, tampouco ele, poderia imaginar.



M. Hendrich, 2008.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Sub[in]m[v]ersão

OditneSentido?



Eu posso sentir o aroma da decadência invadindo meu quarto. Abro as janelas numa frustrada tentativa de mandá-lo embora, mas a fonte sou eu, logo, ele persiste. Faço um grande esforço para tirar os sapatos e jogá-los sob a cama, em seguida, meu corpo ensaia a morte sobre o colchão. Observo o teto e suas estrelas fluorescentes, começo a contá-las e me pergunto se não falta alguma. Quando eu era menor elas pareciam tão mais numerosas. O que acontece quando a gente cresce? Por que o mundo e tudo nele parece ficar tão menor? É como se as coisas perdessem a importância, não só o tamanho. Aquele sorvete de morango que você tanto apreciava, de repente é só um sorvete de morango. O seu brinquedo favorito, lembra-se dele? Onde está agora? Um dia de sol... De que importa um dia de sol? É só mais um na sua lista. Listas, a segunda parte. Tudo parece carecer de programação e tempo. Tantos anos para se formar nisso, tantos meses para começar o novo, de novo, tantos dias para terminar aquilo, tantas horas para a próxima reunião. Eu pergunto: o que há de errado? Se isso é o normal, por que parece tão errado? O problema sou eu, não o mundo. Não as crianças, não o tempo. O problema sou eu que não quero pertencer a esse mundo, a esse tempo... Mas não quero não pelo fato dele ser péssimo, injusto, triste, perigoso, danoso, pois ele também tem todos os contrários, e sim pelo fato de idealizar um lugar onde penso antes no ótimo, justo, feliz, seguro, proveitoso e só depois em qualquer oposto. Alguém aqui consegue me compreender? Eu queria inverter tudo. Só por um momento... Há algo de errado comigo, e eu sei o que é. Eu pertenço a um lugar onde não é doloroso sonhar, a um lugar onde amar é mais importante do que qualquer outra coisa, eu pertenço a um mundo só meu, e é esse o problema, pois eu estou num mundo de todos. Nesse instante, percebo, estou também me afogando.

Onde estás?


Confissões póstumas de L.Q.
 
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