quinta-feira, 27 de maio de 2010

Killer Arthur

Chapter three - Porcelain Blood


Eu precisei perder todo o sangue que corria em meu pulso para aperceber-me de que era a mão de um estranho a segurar-me e não a dele. Julguei dois olhares furtados como méritos da cova que meus dedos construíam sob mim – sem que me fosse possível detê-los –, vislumbrando no reflexo da vitrine minha necessidade de ultrapassar o limite da porta. Pediu-me para acompanhá-lo sem me oferecer – ante o impróprio e indecoroso gesto – a súplica de uma mente adoecida. Estava estampada nos olhos dele a latente urgência de conceder-me uma culpa que, por ora, não me pertencia. Como pôde pintar e borrar um termo tão vulgar sobre minha pele – por muito pouco – imaculada? Como pôde abandonar em minhas palmas o peso daquilo que meu âmago mais precisara negar? Não, ele estava enganado. M-u-i-t-o. Não havia nada que carecia de provas entre nós, e nesse aspecto, tenho certeza, ele deveria concordar.
Eu preciso lhe provar algo. Você também tem a morte nas mãos, não tem? ▪ Perguntou-me e de minhas palavras adormecidas os gritos foram contrariados, quando dos receios subentendidos igualmente ignorados. Neguei, assim o fiz, mas era a verdade e com isso voltei a senti-la sobre minha pele – agora – áspera. Quis chorar, pois meus pulsos ainda doíam, porém, recusei as lágrimas culposas que me aflorariam os olhos azuis – antes fossem da cor do pecado, antes fizessem jus ao meu ânimo quase morto. Soltou-me e pude refletir sobre todas as coisas que aconteciam nos segundos que se sucederam como séculos antepassados. Quem entenderia minhas reflexões? Eu precisava de uma resposta, uma vez que ele me cobrava com a súplica supracitada como pré-requisito para nosso passeio de pseudo-enamorados.
Você vem comigo? ▪ Foi um movimento de lábios preciso e lento, mil vezes mais demorado do que qualquer outra coisa que eu poderia recordar. Quis dizer que não, mandá-lo embora definitivamente e esquecer que tal evento aconteceu, mas fui incapaz diante da urgência de meus sentidos e de minha curiosidade. Afinal, quando você perde tudo o que realmente importa, consequentemente não lhe resta mais nada a temer.
Se você é o retrato da morte, então sim, tenho-a em minhas mãos. ▪ Disse ao entrelaçar nossos dedos apoderando-me de sua tez quente e viva. Quanto tempo passara desde a última vez? Eu não consegui responder. Deixei a loja na companhia daquele total estranho, desejando, (agora confesso) implorando para que ele me fizesse sofrer tanto quanto fosse possível. Nada seria mais doloroso do que meus tormentos habituais, sendo assim, por qualquer outros seriam trocados. Olá, estranho. Prometa-me fazer minhas veias de porcelana sangrarem outra vez.

[ Arraste-me para o inferno! ]

Por Meredith Lewis, viúva de Art Lewis.

sábado, 22 de maio de 2010

Is this love?

Sinceramente? Eu não sei.


Toda vez que acordo ao seu lado tento fazer o mínimo barulho possível, só para desfrutar de mais alguns minutos de silêncio, onde apenas sua respiração me faz saber que está viva, viva defronte a mim. É amor?
Passar um, dois, três dias sem vê-la e já querer fugir, largar tudo, sair correndo só para poder tocar os olhos nas íris azuladas que tanto admiro. É como vislumbrar a profundeza de um oceano, no qual mergulho até o fim sem abrir os olhos. É amor?
Sentir seu cheiro quando vou dormir, ouvir sua voz quando acordo, não conseguir pensar em mais nada quando não está tudo bem com você. Me sentir um idiota toda vez que faço algo idiota com você. É amor?
Querer pausar o tempo, prolongar a eternidade em um beijo, um abraço, um toque seu, porque assim não correria o risco de perdê-la jamais. É amor?
Não encontrar uma palavra, ou não conseguir dizer uma simples frase como resposta, por ser insuficiente para me fazer compreendido. É isso? É amor?

Sinceramente? Se for, sim, eu te amo.

De: Julius
Para: Viola

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Florescência

O Cemitério das Ilusões


O dia era uma quimera. Por mais que os relógios badalassem canções vespertinas, da sordidez à mais pueril melodia, tal ausência de iluminação denunciava a presença de uma noite funesta. Ela estava ali, só não podia ser encontrada (tão menos pronta estivesse para ser detida). Por isso, aos olhos do tempo, era o dia quem se fazia notório – e nele havia trevas.
Viu-se um homem e uma procissão de almas mortas que vagueavam pelos Campos Elíseos de seus pensamentos. Ele que cuidadosamente corrompia o leito de um defunto abandonado, que com donaire o preenchia por um corpo recém-maculado. Não havia face para ser contemplada ou odiada, pois qualquer resquício de luz fora anulado em sua companhia. Seria esplêndido dizer que essa luminosidade fora bloqueada pela mera aura daquele ser, mas igualmente mentiroso, ela simplesmente não estava lá por se tratar de um crepúsculo extremamente sombrio. Alguns diriam ser culpa da névoa que invadira aquela região repentinamente, mas ele sabia que não. A culpa era de seus hábitos, de seus péssimos hábitos.
Com o prelúdio noturno, uma nova presença. E quem seria ela? Uma vez que dele vinha o ele, de quem viria o dela? Uma vez que estava morta e enterrada não poderia simplesmente continuar a existir. Não, não poderia. Porém, assim aconteceu - como o outro supôs.
– Estou meio perdida. Fale comigo. – Seus lábios moveram-se como somente vultos poderiam fazê-lo. Não havia definição no semblante, exceto o sombreado nas íris que observavam e, no chão, o fragor das folhas que se pisavam.
– Estamos todos perdidos. – Ele, aquele de quem falávamos, respondeu ao ponderar sobre o propósito de estranho encontro. Por alguns instantes julgou não ser real. Mera alucinação. E o que separava o inexistente da realidade? Um pensamento? Uma crença? Ambos ou nada era tudo o que tinha e ele sabia utilizar-se dessas armas como ninguém.
– Com um canivete no bolso e as mãos atadas? – Indagou sem receios e assim o desejou. – Quem dera fosse um seqüestro... – Pois quando pensamentos eram crenças, bem, as coisas adquiriam um melhor sentido.
– Com uma arma no bolso e as mãos algemadas. – Ele respondeu sem pensar, deixando-se crer no inacreditável de que aquilo era uma peça pregada por sua própria mente, e que durante algum momento não poderia controlar o rumo de eventuais circunstâncias. – Não é um sequestro.
– Eu sei. Eu sei. – E quem imaginaria que ela também soubesse? Talvez percebesse no timbre dele a verdade, ou a ausência dela. Mas dentre todas as coisas, era percebida a mais autêntica graça. De nobres à plebeus, não haveria pior desgraça – encantar-se por tanto! Por tanto do nada. – Como é o seu nome?
– Nomes? Para que nomes quando nem temos rostos? Sequer luz nós temos. – Tudo o que tinham era sombras, ele estava certo. Mas não se tratava de um sentido unicamente literal, um lugar assombrado, a questão iria muito além.
– Tem uma voz engraçada. E bonita. – Ela precisou ressaltar. – Pode conseguir horrores só com a sua voz. – E quantos horrores ele teria que conseguir para deixar de tê-la? Quantas atrocidades cometer para não igualmente se matar ao ouvi-la? Sua própria voz, não o reflexo, mas o canto de um Narciso desalmado.

Continua.

Bom, essa é uma mostra de um conto que estou escrevendo para presentear a Camila à partir de uma narrativa simples entre uma personagem dela e outra minha - pelo messenger.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Véu de insanidade

Os fios que tecem o escarlate.

A lua iluminava palidamente a copa das árvores, de modo que qualquer indivíduo que ousasse adentrar seus domínios não pudesse ser identificado. Mas dentre todas as folhas orvalhadas e enaltecidas pelo sopro matinal, uma gravura de finos traços, com uma forma alegórica de se movimentar, trespassava por entre elas e destacava-se das flores há muito mortas. Havia uma singular característica que culminava para esse fim: seus ondolados e longos cabelos escarlates. O ar ventilava tempestuoso arrematando daquela usual noite de verão o calor e a graça que, por ventura, a guarneceriam como faz a lareira num típico gesto natalino. Subitamente um muxoxo destoante, como um galho que se rompia, ecoou próximo à mulher. Ela, perdida e abandonada em meio ao incêndio - no momento mera gravura emocional -, rodopiava em agonia e desespero, pois constatava que era a única sobrevivente, e com isso todos seus amigos e familiares teriam falecido. Quando começou a correr, sentiu seus passos vacilarem, no que seria uma tentativa de hesitar diante de dois ou mais corpos, e ela os reconhecia! Era ele, seu belo esposo coberto pelo sangue da infâmia e do sofrimento, e o outro, seu amigo de longos cabelos dourados, que outrora animara suas noites de reclusão e rancor. Lá estava ela, dividida entre deixar-se sucumbir aos pés dos dois, ou em prosseguir pela floresta de sombras e lutar, propriamente dizendo, correr por sua sobrevivência. E ela correu, correu e correu a noite inteira, mas os barulhos, e logo depois a vozes, não pararam de acompanhá-la, como se fosse intrínseco de sua natureza padecer diante do que seria uma elegia em seu funeral. O elogio de sua própria insanidade! A mulher, cuja vestimenta estava corrompida pelos braços e dedos da floresta, à semelhança das páginas de um livro velho carcomidas por traças, não mais tinha vigor para continuar fugindo. Começou a perceber que não havia nada a perseguindo, e que as vozes que a seguiam proliferavam-se de sua mente. Era ela, e somente ela quem estava condenando-se à lamúria do pecado, e as mortes, agora tão distantes, não passavam de um combustível falso e sórdido para as lamentações de cunho egoísta. Deixou-se decair sobre os próprios joelhos e começou a chorar, percebeu que há tempos seu límpido semblante não se via banhado pelas lágrimas. E chorou, e chorou, secando todos os lagos repletos de sangue que existiam em sua alma. Quando ergueu-se e deu-se conta de que estaria curada assim que abandonasse os vícios da dor, um fragor a despertou do quase transe de sensações e pensamentos.

- Era o som do vento...

O som da tempestade...

O chamado da vida, do fim da vida...

Tarde demais para contestar, ela jazia ao chão, coberta pelo líquido escarlate. Sua tez misturava-se com seus fios de cabelo, e aquilo que ela julgou ser mero fruto de sua imaginação frustrada virou realidade, a destituindo de uma vez por todas da benção dos regenerados. Oh, santa pecadora! Deixou-se cegar pela vaidade de que ficaria tudo bem. Isso nunca será mudado, nunca ficará bem, pois agora, tu já estás morta! Acabou-se.

Esse é um conto escrito pelo Connor M. num momento muito delicado de sua vida, na dimensão paralela dos acontecimentos. (01/03/10)

domingo, 9 de maio de 2010

Narcisos são tão belos...


Tem algo de muito errado com aqueles olhos. Com o sorriso perverso que transaparece no semblante depois do sono. O quê? Talvez seja culpa da rosa que você renegou. O vermelho que se desfez em doze pétalas acinzentadas. Talvez seja culpa do aroma morrido, no leito tão cedo dissipado. Ou culpa não seja a designação, por ser, quem sabe, mero eufemismo. Mas eu acho, sinceramente, que não foi nada disso. O olhar, do mais sutil e pérfido envenenamento, era natural daquele ser. Comum ao reflexo do mar, dos lagos nórdicos, do violador das ninfas mais - ou menos - castas. Comum àquela flor que recebeu teu pseudonome. Comum à todos aqueles que compartilham de nossos infinitos disfemismos, de nossas efêmeras sensações. Da ausência delas... Da funesta arte de ser o que se quer ser. Do sempre certo, do nunca errado. Do adorado, do renegado. Do eu e você.

Mera especulação sobre supostas imagens refletidas no pensamento - via twitter.
 
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