sexta-feira, 21 de maio de 2010

Florescência

O Cemitério das Ilusões


O dia era uma quimera. Por mais que os relógios badalassem canções vespertinas, da sordidez à mais pueril melodia, tal ausência de iluminação denunciava a presença de uma noite funesta. Ela estava ali, só não podia ser encontrada (tão menos pronta estivesse para ser detida). Por isso, aos olhos do tempo, era o dia quem se fazia notório – e nele havia trevas.
Viu-se um homem e uma procissão de almas mortas que vagueavam pelos Campos Elíseos de seus pensamentos. Ele que cuidadosamente corrompia o leito de um defunto abandonado, que com donaire o preenchia por um corpo recém-maculado. Não havia face para ser contemplada ou odiada, pois qualquer resquício de luz fora anulado em sua companhia. Seria esplêndido dizer que essa luminosidade fora bloqueada pela mera aura daquele ser, mas igualmente mentiroso, ela simplesmente não estava lá por se tratar de um crepúsculo extremamente sombrio. Alguns diriam ser culpa da névoa que invadira aquela região repentinamente, mas ele sabia que não. A culpa era de seus hábitos, de seus péssimos hábitos.
Com o prelúdio noturno, uma nova presença. E quem seria ela? Uma vez que dele vinha o ele, de quem viria o dela? Uma vez que estava morta e enterrada não poderia simplesmente continuar a existir. Não, não poderia. Porém, assim aconteceu - como o outro supôs.
– Estou meio perdida. Fale comigo. – Seus lábios moveram-se como somente vultos poderiam fazê-lo. Não havia definição no semblante, exceto o sombreado nas íris que observavam e, no chão, o fragor das folhas que se pisavam.
– Estamos todos perdidos. – Ele, aquele de quem falávamos, respondeu ao ponderar sobre o propósito de estranho encontro. Por alguns instantes julgou não ser real. Mera alucinação. E o que separava o inexistente da realidade? Um pensamento? Uma crença? Ambos ou nada era tudo o que tinha e ele sabia utilizar-se dessas armas como ninguém.
– Com um canivete no bolso e as mãos atadas? – Indagou sem receios e assim o desejou. – Quem dera fosse um seqüestro... – Pois quando pensamentos eram crenças, bem, as coisas adquiriam um melhor sentido.
– Com uma arma no bolso e as mãos algemadas. – Ele respondeu sem pensar, deixando-se crer no inacreditável de que aquilo era uma peça pregada por sua própria mente, e que durante algum momento não poderia controlar o rumo de eventuais circunstâncias. – Não é um sequestro.
– Eu sei. Eu sei. – E quem imaginaria que ela também soubesse? Talvez percebesse no timbre dele a verdade, ou a ausência dela. Mas dentre todas as coisas, era percebida a mais autêntica graça. De nobres à plebeus, não haveria pior desgraça – encantar-se por tanto! Por tanto do nada. – Como é o seu nome?
– Nomes? Para que nomes quando nem temos rostos? Sequer luz nós temos. – Tudo o que tinham era sombras, ele estava certo. Mas não se tratava de um sentido unicamente literal, um lugar assombrado, a questão iria muito além.
– Tem uma voz engraçada. E bonita. – Ela precisou ressaltar. – Pode conseguir horrores só com a sua voz. – E quantos horrores ele teria que conseguir para deixar de tê-la? Quantas atrocidades cometer para não igualmente se matar ao ouvi-la? Sua própria voz, não o reflexo, mas o canto de um Narciso desalmado.

Continua.

Bom, essa é uma mostra de um conto que estou escrevendo para presentear a Camila à partir de uma narrativa simples entre uma personagem dela e outra minha - pelo messenger.

2 Voz[es]:

, Camila. disse...

Um dos melhores diálogos que os nossos personagens já tiveram. A sintonia deles me assombrou naquele dia e... Um presente pra mim? *-* Eu amo tudo o que você escreve, é incrível! E o título... <3

JessVelvet disse...

Foi um diálogo e tanto, não? *-* Tenho 14 páginas para trabalhar. Sim! Uma pseudo-surpresa agora, haha. Obrigada, Camila. Você sabe que é mútuo. ♥

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