Os fios que tecem o escarlate.
A lua iluminava palidamente a copa das árvores, de modo que qualquer indivíduo que ousasse adentrar seus domínios não pudesse ser identificado. Mas dentre todas as folhas orvalhadas e enaltecidas pelo sopro matinal, uma gravura de finos traços, com uma forma alegórica de se movimentar, trespassava por entre elas e destacava-se das flores há muito mortas. Havia uma singular característica que culminava para esse fim: seus ondolados e longos cabelos escarlates. O ar ventilava tempestuoso arrematando daquela usual noite de verão o calor e a graça que, por ventura, a guarneceriam como faz a lareira num típico gesto natalino. Subitamente um muxoxo destoante, como um galho que se rompia, ecoou próximo à mulher. Ela, perdida e abandonada em meio ao incêndio - no momento mera gravura emocional -, rodopiava em agonia e desespero, pois constatava que era a única sobrevivente, e com isso todos seus amigos e familiares teriam falecido. Quando começou a correr, sentiu seus passos vacilarem, no que seria uma tentativa de hesitar diante de dois ou mais corpos, e ela os reconhecia! Era ele, seu belo esposo coberto pelo sangue da infâmia e do sofrimento, e o outro, seu amigo de longos cabelos dourados, que outrora animara suas noites de reclusão e rancor. Lá estava ela, dividida entre deixar-se sucumbir aos pés dos dois, ou em prosseguir pela floresta de sombras e lutar, propriamente dizendo, correr por sua sobrevivência. E ela correu, correu e correu a noite inteira, mas os barulhos, e logo depois a vozes, não pararam de acompanhá-la, como se fosse intrínseco de sua natureza padecer diante do que seria uma elegia em seu funeral. O elogio de sua própria insanidade! A mulher, cuja vestimenta estava corrompida pelos braços e dedos da floresta, à semelhança das páginas de um livro velho carcomidas por traças, não mais tinha vigor para continuar fugindo. Começou a perceber que não havia nada a perseguindo, e que as vozes que a seguiam proliferavam-se de sua mente. Era ela, e somente ela quem estava condenando-se à lamúria do pecado, e as mortes, agora tão distantes, não passavam de um combustível falso e sórdido para as lamentações de cunho egoísta. Deixou-se decair sobre os próprios joelhos e começou a chorar, percebeu que há tempos seu límpido semblante não se via banhado pelas lágrimas. E chorou, e chorou, secando todos os lagos repletos de sangue que existiam em sua alma. Quando ergueu-se e deu-se conta de que estaria curada assim que abandonasse os vícios da dor, um fragor a despertou do quase transe de sensações e pensamentos.
- Era o som do vento...
O som da tempestade...
O chamado da vida, do fim da vida...
O som da tempestade...
O chamado da vida, do fim da vida...
Tarde demais para contestar, ela jazia ao chão, coberta pelo líquido escarlate. Sua tez misturava-se com seus fios de cabelo, e aquilo que ela julgou ser mero fruto de sua imaginação frustrada virou realidade, a destituindo de uma vez por todas da benção dos regenerados. Oh, santa pecadora! Deixou-se cegar pela vaidade de que ficaria tudo bem. Isso nunca será mudado, nunca ficará bem, pois agora, tu já estás morta! Acabou-se.
Esse é um conto escrito pelo Connor M. num momento muito delicado de sua vida, na dimensão paralela dos acontecimentos. (01/03/10)
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