segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

            A Carta (29 de agosto de 2009)

                   “O suicídio do saber é o não compreender.” *
                        
Há duas formas de se começar uma história: pelo início, ou pelo fim. Escolherei para esta, assim mesmo no futuro, pois os fatos que serão narrados ainda não me são completamente claros, uma vez que meu talento de escritor é dependente da minha falta de tato criativa (estou agora com a corda, a faca, o queijo, e a paisagem na visão), o meio. O que me é original não me pertence, visto que me fora doado por dezenas de ideias originadas em outras pessoas, corpos, mentes, os três, ou nenhum. Logo, essa história não é nova. Mas então te pergunto, caro ouvinte (ou leitor?); o que é original nesse mundo? Oh Terra, se algum dia tomei emprestadas ideias de outrem, e se antes elas não foram apresentadas com a organização e reforma que me prestei a atribuir-lhes, então mostro como original de mim uma nova abordagem, que ainda que tenha se formado da junção de várias outras – e velhas – ideias pode ser considerada como vinda de quem sou. É meu. Pronto. Acabou. Eu não quero soar um narrador déspota e cheio de uma pseudo-intelectualidade expressada no afirmar de algumas sentenças que deveriam ser de opinião pública, mas se tudo o que eu fosse escrever se limitasse ajustando-se aos padrões do que um – mais? – suposto leitor espera, então nem me adiantaria perder (talvez ganhar) tempo começando com reflexões ou histórias que antes de tudo pertencem a mim. No começo só existia o nada, um vazio absolutamente grande que já estava farto com toda a falta de significância que o preenchia. Uma infância rica mas triste, constata-se aqui. Tratava-se de uma pessoa. Uma alma cuja motivação vital estava por um fio da extinção. Mas antes que se conclua a apresentação de tal, devo lembrar de que (teria sido num momento de insanidade?) propus-me a ignorar todo e qualquer prelúdio. Começando pelo meio... Não, está tudo errado. Não tem como fugir do início, nem agora que ele é o meio, pois sinto que só troquei os nomes e não os valores – vou me repetir três vezes. Tentaremos novamente (eu que estou escrevendo e você que um dia estará lendo, mas se no caso já o está, então o dia pra você é hoje, que seja). O protagonista suicidou-se. Basta, desisto, eis aqui o meu desfecho. Não sabia se conseguiria guardar por tanto tempo comigo essa confissão, e vejo que não. É certo que o meio utilizado me ocorreu agora e o motivo eu ainda nem relatei, mas então foram gastos alguns segundos para que eu dissesse o que deveria camuflar dignamente para o final. Mesmo que seja a morte escolhida uma atrocidade vulgar e indigna. Vulgar porque é constante, e indigna porque a bíblia quis assim – e quem sou eu, reles mortal, para subjugar o poder da palavra de homens que acreditam no que estão dizendo? Eu sou um nada. Mas não, não sou somente o nada de quase vital do qual deveria – e vai – se tratar essa narração. Sou apenas o nada absoluto que a criou. Sou duas vezes nada. Quanta hipocrisia! Serei eu também o tudo repleto com a falta de valores. Não sou muito esperto, mas também não sou moralista, sou um vil homem que pensa, pensa, pensa, e nada consegue explicar. Mas voltando ao final da história... Ele tinha trinta anos, sete meses e quinze dias, quando chegou à conclusão de que nada do que ambicionara pro futuro era bom o bastante para superar o tormento de conviver com o presente. Era um homem instruído na melhor faculdade de Administração de seu país, fazendo jus a isso aprendera a administrar todo seu conhecimento, de modo que sempre era sabido dos assuntos ideais para cada momento. Orgulhava-se de ser considerado tão inteligente pelos demais, de inúmeros elogios orgulhava-se tanto, que esquecera de cultivar outras coisas tão ou mais importantes. Ele lera os livros dos mais célebres filósofos, compartilhara das palestras dos mais renomados profissionais de sua e até de outras áreas. Ele repetia com precisão todas as coisas que aprendia, mas perdera tanto tempo em somente cultivar o seu saber, que nunca (em mais de quinze anos) parou para pensar no que compreendia disso. Ele sabia que era atribuída a Sócrates a frase “conhece-te a ti mesmo”, e a dizia com audácia para tantos outros, mas nunca, de fato, refletira sobre a importância de seu sentido. Foi preciso que esse homem perdesse tudo para descobrir que não tinha nada. Jamais pôde desfrutar dos prazeres simples da vida, pois esteve sempre muito centrado em descobrir meios de experimentar dos mais complexos. Ele não sabia o que era amar, sempre julgara que conhecer dos amores lidos, vistos e ouvidos, bastava para compreender as lágrimas derramadas, os suspiros doados e os beijos furtados por outras pessoas. Apesar de todos seus males até pouco antes não males, pois desconhecidos, ele era uma pessoa agradável, até admirável por quem apenas o ouvia rapidamente falar. Uma convivência com tal homem seria insuportável, pois ele tanto tinha de interessante quanto um site de buscas na Internet. Ele era inteligente, sabia de tudo, e de certas coisas com muita precisão, mas da mesma forma que lhe fartava o conhecimento, lhe passava longe – bem longe – a sabedoria. Do que adiantou ler sobre todo o legado de Aristóteles, de Niezstche, de Dostoiévski, se em quase nada os compreendeu? Era assim que o homem finalmente introduzido, contado, e quase finalizado, pensava sobre os principais aspectos da vida. De tudo conhecia, de nada compreendia. Foi disso que ele morreu. Perdeu primeiramente o dinheiro, num simplório lance do destino, quando todas suas ações foram rebaixadas ao nível do submundo. Depois perdera os amigos, pois uma pessoa como ele só conseguia companhia se estivesse muito antes acompanhado por aquilo que já não tinha. Fora tudo em seis meses. Por fim, perdera a inteligência. Depois de mais dois. Diria ser isso impossível? Eu o afirmo que não. O homem deu-se conta de todas as coisas em sua vida que carecia de compreensão, de como fora tolo na maior parte do tempo, de quão grande era o vazio aonde seus passos se encarregaram de o largar. Enfim ele percebeu que tudo o que tinha era uma pseudo-intelectualidade, não mais dinheiro, não mais amigos, nem mesmo família. Um homem incapaz de enxergar no sol algo além de uma dolorosa mancha de luz. Ele desconhecia das alegrias do dia, dos prazeres da noite, não tinha nada senão um desejo irresistível de anular sua existência desde o início redundante. Ele perdeu sua inteligência no momento que compreendeu que sem sabedoria ela não tinha valor algum. Ele perdeu a felicidade de viver quando compreendeu que nada tinha de realmente feliz para recordar, para ansiar. E todas suas lamentações fizeram sentido quando viu que não havia ninguém ao seu lado para delas compartilhar. Era um homem morto. Esse homem, até então sem nome, até então com vida, ninguém teve para chorar-lhe a morte, mas não fez mal. Ele enfim compreendeu o significado de “não adianta chorar sobre o leite derramado”, e deixou-se levar pela única atitude sábia realizada em toda sua vida. Deixou que o vôo da morte o levasse para lá, ou para lugar nenhum, jogando-se do quinto andar e esperando que sua carta de suicídio não passasse de um conto fictício sob os olhos de alguém. Voemos juntos uma última vez. Eu, você, e minhas enfadonhas palavras sobre a vida desse homem que de nada mais importa. Que de nada nunca importou. Um homem cujo nome não interessa, e cuja vida se mistura com a minha. Agora sabes que o que narro não é original, que sou apenas uma junção de acontecimentos que já destruiu – separadamente – muitas outras vidas. Sou quem narra, quem inventa, quem conta, quem mata, e sou também quem morre. Fim.

*do autor.

Nota -
O texto aqui relatado não passa de um conto fictício, cuja personagem principal o autor - vulgo Jess - não sabe nem mesmo o nome.

1 Voz[es]:

ARBO, Jade disse...

Caaara! Genial!
Sério, tirei o chapéu. Quero ser que nem tu quando crescer(?). *_*
Gosto da forma com que a tua narrativa flui, e o modo como as tuas idéias soam claras. Posso estar errada, mas eu capto uma estranha espécie de humor desde texto.
Aliás, o tema da história me lembra todo o montante de pseudo-intelectuais que se consideram nobres enciclopédias ambulantes, mas que nada sabem fazer com o que lhes deu tanto trabalho para decorar.
Parabéns, Jess.

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