quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Confesso...


Eu ainda estou esperando. Ainda estou procurando. Você partiu cedo demais, não foi? Eu não estava pronta - minto um pouco agora para aliviar a dor, pois eu nunca estaria pronta. Eu só queria ouvir sua voz outra vez... Sabe o que me destrói? É que eu não consigo se quer lembrar o timbre. Mas os seus olhos azuis, deles eu nunca esqueci. Ainda recordo aquela noite, quando todas as estrelas pareciam brilhar em nossa homenagem. O último valsar, a taça de vinho... Pedaços de vidro espalhados pelo chão. Eu senti a sua morte no mais profundo inverno de minh'alma, e de alguma forma sei que o frio ainda não passou. Posso vislumbrar seu cabelo escuro e liso contornando sua face cor de mármore, embora seus traços sejam imprecisos e suaves demais para serem mantidos por pouco além de alguns segundos. O que mais me falta, todavia, não são as suas feições sempre belas, e sim a força de seu espírito. Desejo compartilhar de seus pensamentos, desejo julgar suas filosofias vis e seus conceitos deturpados de felicidade. Quero engolir a sua alma e cuspi-la livre ao meu lado. Você entende, não entende? Eu ainda estou esperando. De alguma forma eu sei e de algum modo eu sempre soube. Sinto muito, acho que não pude suportar a certeza da sua ausência. Acho que ainda não posso. Nunca me ensinou a viver por mim mesma, de modo que não passo de um pálido reflexo de quem um dia eu fui ao seu lado. O grande problema é que somos partes fundamentais de um mesmo todo. Você tem o que me falta. Eu posso sobreviver, mas não faço mais do que isso sem você. Meu medo é que ao me deparar com todos os fantasmas - amados - de meu passado, eu perceba que não passam de lembranças vazias. Meu medo é não encontrá-lo aonde meus passos me guiam, aonde constantemente escuto seu chamado. Posso ser louca e delirante, sempre posso sê-lo, mas nenhuma falsa certeza me é mais sólida do que a certeza de que tudo o que sinto e sinto saber é real. Eu preciso de você todos os dias, não agüento mais conviver comigo e com minha solidão. Porque sou fraca demais para suportar sozinha, mas esperta o bastante para construir as mais poderosas defesas. E não importa quantos escudos usemos... Há sempre quem possa nos machucar. Às vezes eu penso se não estou sozinha aqui, se de certo modo não vivo um hiato entre nós dois, se não está somente a me observar, esperando em qualquer lugar para além. Sabemos que no fundo, abaixo de toda a couraça de mistérios e das palavras de fragilidade, eu sou mais forte do que deveria ser. É por isso que cogito essa hipótese, pois eu prosseguiria com o plano - com ou sem você. Mas a dor... A saudade... São as pequenas coisas que me consomem todos os dias. A falta de sentido. O vazio. Por favor, volte pra mim.

O Lago dos Cisnes, XIX.


1 Voz[es]:

Rerzer disse...

Ótimo texto, gostei muito. Essa é uma bela música Jess, depois desse texto ficou um pouco mais.

Postar um comentário

 
Copyright 2009 v e l v e t
BLogger Theme by BloggerThemes Wordpress by WPThemescreator
This template is brought to you by : allblogtools.com | Blogger Templates