sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Domaine de Rouge

O chamado escarlate

Toda noite eu olhava para o mesmo lado da janela, e três faces distintas sorriam para mim. Não se tratava de uma formalidade vislumbrada ao deleite da vaidade, nem de um pretexto vazio. Eram vultos disformes que logravam da perícia de escolher aqueles que deveriam partir.
Quando finalmente as palavras começaram a sair de meus dedos e eu admiti que sonhos não eram realidade, eles proferiram os furtivos e primevos dizeres aos meus ouvidos.

"Partir não é um eufemismo para a morte. Nesse caso, é apenas um subterfúgio para o verbo matar."

Tudo começou na sétima noite do mês de setembro.

A madrugada barrotada pela brisagem gélida do prelúdio invernoso, as luzes escassas que provinham dos postes negros às margens do asfalto, todos os mínimos ornatos estavam bem dispostos fronte a mim. Era uma teia intangível cujas significações não seriam decifráveis por olhos mortais. Assemelhava-se ao cântico fúnebre com dizeres mudos das almas já falecidas. Eu deveria ser cônscia de que minha visão precisava reconhecer cada traço - risco - pérfido de desarmônico acontecimento - futuro fosse. ...

        Vista-me com o véu da morte.

O sino do campanário mais próximo, com jardins descoloridos que se entralaçavam perante as ruas estreitas e difusas da velha Londres, assobiou no breu da noite para que inclusive eu - uma sombra imaculada - pudesse ver as gralhas voando da abóboda da torre mais alta rumo ao olho daquele que não deveria deter um nome. O vento gradativamente se tornava mais intenso, ondulações de gelo o tornavam denso como as gotículas ínfimas que respingavam em meu semblante pálido, deixando relativamente claro o aproximar de uma tempestade anômala. Coisas tais que nem as previsões meteorológicas, tampouco as adivinhações metafísicas poderiam nos dizer. ...

                     Meu coração teria um preço.

Eu ouvi as vozes que antes não passavam de sussurros fantasmagóricos ressoando em minha mente, cada vez mais audíveis, cada vez mais repletas de valores. Cai ao chão três vezes antes de notar o sangue sob minhas mãos, eles estavam me dando a escolha de renegá-los ou não. Observei que a água agora corria pela sarjeta, que os estrépidos estéreis preenchiam o vão dos céus. Olhei ao meu redor e só restava aqueles mesmos três vultos esquálidos que me atormentavam o pensamento. Os três sorriam para mim com um pedaço de vidro estilhaçado estendido a um palmo de minha visão. O peguei, o senti, o desejei ardendo em minhas entranhas como nunca antes me fora permitido imaginar. Eles me deram escolha, e como fui-lhes grata por isso. Levei a mão ao vidro e o vidro ao pescoço. Dentro de segundos eu jazia ao chão. No instante seguinte, meus olhos estavam abertos e o que eu via não era o paraíso, nem o inferno, eu deslumbrava meu próprio mundo, mas agora, tingido estava de escarlate.

Por Domaine de Rouge, um anjo da morte francês.

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