terça-feira, 12 de outubro de 2010

Malditos Cigarros


Parte 2 - "Cigarettes"

[...] Disse simplesmente, recusando-se a lhe observar o rosto. Qualquer expressão, bela ou vetusta – esta última que ultrapassava em desprezo de seus conceitos a fealdade –, poderia fazê-lo mudar de idéia, mas deixar-se governar por impulsos de uma natureza tão duvidosa quanto os significados da flor que a desconhecida representava seria um erro inadmissível.

- Fale-me!

Ela bradou antes que dois passos fossem dados em seu oposto, impedindo-o, com o susto, de prosseguir pela alameda das ilusões – onde poderia livrar-se daquela presença com o mero gesto de quem sabe ignorar. Ele pressionou os dedos no punho fechado e parou, virando-se para ela e tomando-lhe o semblante com um curioso olhar. Era bela, decerto, e jovem, deveras, o que lhe causou o asco, pois imaginar era antes aceitável ao ato de tomar a certeza de que a influência daquela pessoa estava imposta terminantemente sobre suas reações.

- Não há nenhuma resposta que lhe possa ser dita sem que tu mesma já não a tenhas encontrado.

As palavras desencadeavam uma série de conclusões aleatórias nele. Não respondia a ela, mas a si, e com isso postou-se desejoso diante da respiração cálida e dos lábios rosados da moça de vestido azul. Afagou o maço de cigarros no bolso externo do paletó, uma espontânea vontade o seduzia, mas era necessário negá-la, do contrário os acontecimentos perderiam o sentido e o rumo das coisas culminaria no mais sórdido desfecho. Era sempre assim. Ele precisava lutar contra suas necessidades, precisava fingir para outros olhos o que não estava vendo – quando na verdade, era apenas o que poderia enxergar. Não existia beleza nas coisas puras, não existia pudor num ato de bondade. A beleza era um artifício que dispensava interpretações, deveria ser apenas admirada e nunca explicada, por isso as designações fugiam aos seus limites. Já o pudor residia somente na mente de quem observava e em mais nada.

- Eu suportaria teus abraços e até tua agressão. Meu orgulho me condena ao silêncio, mas meus sentimentos não cansam de dizer: não há nada tão danoso a uma alma quanto a indiferença de outra por ela estimada. Se vá, mas não me deixe.

As palavras que acabara de ouvir, ela sabia como ninguém os seus significados. Talvez por isso falasse como se há muito o conhecesse, insinuando acontecimentos que somente uma memória compartilhada podê-lo-ia mostrar.

[...]

2 Voz[es]:

, Camila. disse...

Relendo esse texto, me lembrei de que não conheço esse personagem. Apesar de o nome "alameda das ilusões" me trazer alguma lembrança estranha.

JessVelvet disse...

O personagem do texto... É, você não conhece. Mas ele não é importante, o significado dele que é. Quem está por detrás do significado você conhece.

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